Ouro de Zanetti confirmou o crescimento da ginástica masculina brasileira no
último ciclo
Se há quatro anos dissessem que o Brasil conquistaria uma medalha olímpica em
2012, muitos apostariam que seria de uma mulher. E no solo ou no salto, jamais
nas argolas. Não foi o que aconteceu.
A CBG (Confederação Brasileira de Ginástica), por sua vez, vê com olhos
diferentes. “Se você pensa na ginástica de primeiro mundo, os investimentos na
China, nos Estados Unidos, na Rússia, é evidente que falta muito investimento.
Mas todo investimento aumentou consideravelmente durante esses anos”, pontua
Klayler Mourthé, supervisor de seleções da entidade.
O ciclo entre os Jogos de Pequim e Londres
fez uma nova estrela no Brasil, Arthur Zanetti, e confirmou o crescimento
masculino que já se desenhava com os títulos de Diego Hypolito. Mas viu uma
queda acentuada nos resultados da equipe feminina, sem novos talentos e ainda
muito dependente de atletas do passado.
O nome de Zanetti ficou conhecido do grande público há menos de dois anos,
com a evolução em etapas de Copa do Mundo, Sul-Americano e Pan-Americano. O
ginasta de São Caetano, porém, já vinha sendo moldado há bem mais tempo, na
pequena academia em que treina até hoje com aparelhos desenvolvidos por seu
próprio pai.
Era a mesma realidade de Sérgio Sasaki, o outro finalista
brasileiro em Londres, 10º colocado no individual geral e há menos de um ano
atleta do Flamengo.
“Nós nunca tivemos patrocínio até alguns meses atrás. Sempre trabalhamos com
dinheiro da prefeitura [de São Caetano] e da Associação de Pais”, lembra Marcos
Gotto, técnico de Arthur e da seleção brasileira masculina, torcendo para que o
resultado de seu pupilo mude os rumos da ginástica no Brasil.
“Falta patrocínio, falta estrutura. O que eu quero é que o país inteiro agora
apoie o esporte. Fala-se muito em 2016, mas vamos ver o que será feito até lá.
Nós que estamos no esporte sabemos que o atleta de 2016 já está pronto. Não se
faz um atleta de alto rendimento em quatro anos”, completou.
GINÁSTICA FEMININA NO CICLO
Várias ginastas foram testadas no último ciclo, mas no final, Daiane dos Santos e Daniele Hypolito continuaram sendo as principais estrelas do time. Somadas as medalhas da dupla com as de Ethiene Franco e Bruna Leal, também presentes em Londres, foram 13 pódios em Copas e 3 no Pan
Para o dirigente, resultados positivos como o ouro de Zanetti ajudam a dar
visibilidade à ginástica brasileira. “Precisamos caminhar de maneira segura. A
ginástica nunca teve tanta exposição na mídia. E a gente precisa dessa exposição
para atrair investidores. A gente precisa dar passos de acordo com a
possibilidade de cada instante. E crescer de forma constante. É impossível
transformar um pais de terceiro mundo em um de primeiro mundo em 10 anos, a
mesma coisa no esporte”.
GINÁSTICA MASCULINA NO CICLO
Sérgio Sasaki (e) e Arthur Zanetti foram os destaques do Brasil no último
ciclo olímpico. Ao lado de Diego Hypolito, foram 17 medalhas em Copas, 2
medalhas em Mundiais e 1 medalha olímpica. O trio também liderou o Brasil na
inédita conquista do ouro por equipes no Pan-2011
Os resultados de Zanetti, a permanência de Diego Hypolito na elite de solo, o
aumento dos investimentos e o surgimento de centros de treinamentos pelo país
podem servir de trunfos para a CBG, cuja presidente, Luciene Resende de Freitas,
pretende tentar a reeleição no pleito de dezembro. Entretanto, a queda da
ginástica artística feminina e da ginástica rítmica (que não se classificou para
Londres) mancham o ciclo.
Em Pequim, Daiane dos Santos, Jade Barbosa e Daniele Hypolito levaram ao
Brasil à final por equipes e conseguiram disputar quatro medalhas individuais.
Em Londres, após conseguir a vaga olímpica na última chance – o evento-teste de
janeiro –, o time feminino terminou em último lugar na disputa coletiva e
nenhuma atleta avançou às disputas por aparelhos.
MAIS SOBRE O OURO DE ZANETTI
É consenso, até mesmo dentro da CBG, que o fato de o Brasil continuar
dependente de ginastas mais velhas – Daiane, Daniele, Jade (que não foi à
Olimpíada por questões contratuais) e Laís Souza (cortada duas semanas antes dos
Jogos) – foi fundamental para a queda de rendimento. Avaliar o trabalho de base
como suficiente, a CBG argumenta que a geração atual não foi frutífera para
formar um time novo e bom.
“Sempre tem uma transição de uma geração pra outra. Pode ter uma onde surjam
atletas muito bons, e outra sem tantos atletas. Hoje, visando 2016, nós já temos
a Rebeca Andrade [de 13 anos]. Para 2012, tínhamos a Letícia Costa, que é
extramente talentosa, mas teve problemas de lesão. Era uma atleta com
possibilidades muito boas”, avalia Klayler. “A masculina não teve transição, é
uma geração nova que estava sendo preparada”.
A possibilidade de retomar a seleção permanente não está em discussão. Apesar
de nenhuma grande ginasta ter surgido neste ciclo olímpico, a Confederação
acredita que a dispersão das atletas entre os clubes é mais saudável. “A gente
continuou classificando uma equipe. Para ficar entre as 12 melhores equipes do
mundo, é preciso ter uma qualidade de ginástica considerável”, pondera o
supervisor.
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